A subida de divisão brilhantemente alcançada pelo Estoril, no final da época passada, devolveu o clube ao seu verdadeiro lugar no contexto do futebol português e do desporto nacional. Estar entre os melhores foi sempre o destino do Estoril, como facilmente se pode comprovar pela consulta ao descritivo histórico do clube.
O regresso do clube à Primeira Liga é uma consequência de um trabalho estruturado de uma equipa de profissionais, que entenderam o perfil do clube e o ADN desportivo de um emblema que já faz história há mais de setenta anos. Um clube de Primeira, inserido numa região onde o mar e o sol são riquezas naturais e ajudaram a criar uma identidade própria de um clube diferente, cumpridor e referencial no desporto nacional.
Os últimos anos de algum ocaso desportivo e dificuldades de afirmação no futebol português não apagaram o essencial da verdadeira matriz de um clube de Primeira, fundado com alicerces próprios e um início fulgurante, nos seus primeiros anos de existência.
Um Clube da Linha
É uma das expressões que mais se utiliza para caracterizar o Estoril. Na imprensa, nas televisões e nas rádios, a designação destapa o duplo sentido com que foi criada. Desde a data da sua fundação, a 17 de Maio de 1939, que o Estoril sempre foi um clube da Linha. E por dois motivos, tão complementares, nessa época, como agora.
Inicialmente, o clube adoptou um "naming" especial, que combinava a grandeza natural da localidade com um certo prestigio social que lhe era dado pela admiração que os estrangeiros tinham pela região. Assim, os fundadores do clube baptizaram o clube com o singular nome de Grupo Desportivo Estoril Plage.
Este era, desde logo, o sinal que os fundadores do clube emitiam para o Mundo, de um clube distinto socialmente e ambicioso no plano desportivo. Um clube que reflectia, nas suas fundações, uma linhagem social que o ajudava a distinguir-se no contexto do desporto nacional. Um dos mentores do clube e principal dinamizador da criação de um clube desportivo, foi Fausto Cardoso de Figueiredo, um empresário de grande porte económico, proprietário do Caminho de Ferro Lisboa-Cascais e ainda dos hotéis Inglaterra, Paris e Palácio, este último, que viria a ser palco de encontros que ajudaram a fazer a história de Portugal durante a Segunda Grande Guerra Mundial.
Além dos hotéis e dos Caminhos-de-ferro, Fausto Cardoso de Figueiredo, era ainda o dono do edifício das Termas e do Casino do Estoril. Uma pessoa muito respeitada na comunidade e que rapidamente conseguiu angariar outros apoios para a criação definitiva de um clube desportivo que representasse a região, os seus valores e a sua reputação internacional.
Após a data de criação do novo clube, seria eleita a primeira direcção do Estoril, constituída pelos seguintes nomes: Joaquim Cardim, José Ereia, João Rebelo, Armando Vilar, Ernesto Tomás e ainda Joaquim Nunes.
Como forma de aprofundar a ligação à região, foi decidido pela primeira direcção que as cores para o emblema do clube seriam o amarelo, que simboliza o sol e o azul, que reflecte o mar. Deste modo, ficou estabelecido um elo que perdurou até hoje, entre o clube e região que o envolve, um elo que se diferencia pelos factores naturais de excelência de toda a costa local e que estão duradoiramente retratados no emblema e nos equipamentos das várias equipas do clube.
Finalista da Taça de Portugal
Os primeiros anos do Estoril foram de retumbante sucesso desportivo e, no futebol, não demorou muito tempo a conseguir resultados estrondosos. O objectivo de se afirmar como um clube que fosse uma referência desportiva e social de toda uma região rapidamente ganhou contornos definitivos e quatro anos após a sua criação, o Estoril alcança uma das suas maiores façanhas, atingindo a final da Taça de Portugal, na época de 1943/44.
Foi uma época esplêndida, já que além da final da Taça de Portugal, o Estoril garantiria igualmente o acesso à Primeira Divisão do futebol português na época seguinte. Na Taça de Portugal, até chegar à final, onde defrontou o Benfica, o Estoril eliminaria várias equipas, entre as quais, a do Vitória de Guimarães e a do FC Porto.
Começa aqui uma tradição de dificuldades para o FC Porto sempre que defronta o Estoril em competições oficiais em Portugal, especialmente visíveis, mais tarde, nas décadas de setenta e oitenta do século passado.
Essas dificuldades dos portuenses, voltariam a afirmar-se, na época seguinte, em 1944/45, durante a primeira participação do Estoril na Primeira Divisão, já que, nessa temporada, o Estoril goleou o FC Porto por 8-1, no seu estádio.
Apesar do volume desse resultado, ainda hoje histórico, essa não foi a maior goleada de sempre do Estoril no campeonato, já que na época de 1949/50, a equipa "canarinha" venceu, no seu estádio, o Lusitano de Vila Real de Santo António por 10-0.
Foram os primeiros anos dourados do Estoril, na Primeira Divisão, com prestações de qualidade, afirmando o clube na principal competição do futebol português e conseguindo resultados surpreendentemente positivos, que se estenderam até à época de 1952/53, que terminaria com a descida de divisão e iniciaria o período mais longo da história do clube sem participar na Primeira Divisão.
Regresso à Primeira Divisão
Ao todo, foram 23 anos afastado da grande competição de clubes do futebol português, mas nem por isso o Estoril definhou no seu objectivo de se consolidar como um clube referencial do desporto português e de uma região que se afirmava no contexto nacional e internacional.
Após mais de duas décadas a tentar o regresso à Primeira Divisão, seria no ano de 1976, dois anos após a revolução dos Cravos, que o Estoril alcançaria um dos resultados mais memoráveis da sua história, alcançando a desejada promoção.
A década de setenta seria, talvez, uma das mais notáveis do Estoril, no futebol português, já que após a subida de divisão, o clube manteve-se na principal competição durante cinco anos consecutivos.
Jogadores como António Simões e José Torres, antigos campeões europeus, eram grandes referências da equipa, a que se juntaram outros jovens talentos como Fernando Santos e Norton de Matos.
Durante cinco anos consecutivos, o Estoril ofereceu aos seus adeptos e ao futebol português a imagem de um futebol positivo, claro e competitivo. E sobretudo projectou-se como um clube de Primeira e de uma região socialmente sofisticada.
Constituição da SAD
Nos últimos vinte anos, o futebol mudou bastante nos seus conceitos e na forma de financiamento da sua actividade. O Estoril, após duas décadas de subidas e descidas no futebol português, sem grande destaque desportivo, optou por acompanhar os ventos da modernidade e avançar para a constituição de uma sociedade anónima desportiva para o futebol profissional.
O dia 11 de Novembro de 2000 será sempre um marco na história do clube, pois foi assinada, nesse dia, a constituição da SAD do Estoril, que permitiu profissionalizar a gestão do futebol do clube, mantendo os valores e a tradição de um clube com mais de sessenta anos de existência.
Os primeiros anos de existência da SAD não foram fáceis, mas a perseverança dos seus dirigentes teriam resultados concretos a partir da época de 2002/2003, altura em que o Estoril subiria à Liga de Honra, após uma fantástica recuperação na II Divisão. Foram dois anos de grande sucesso, com duas subidas de divisão consecutivas, da II Divisão para a Liga de Honra e no ano seguinte para a Primeira Liga.
Entrada da Traffic
É outro dos momentos marcantes da história do Estoril e, porventura, um dos seus acontecimentos mais relevantes. Após a subida de divisão à Primeira Liga, em 2004, verificaram-se mudanças na estrutura accionista e que tiveram um impacto negativo na gestão desportiva do Estoril.
A principal consequência foi a imediata descida de divisão, no final da temporada de 2004/05, com a SAD a atravessar dificuldades financeiras que se alongaram no tempo e quase levaram ao encerramento da sociedade e ao fim da equipa profissional de futebol.
O Estoril não se conseguiu afirmar na Primeira Liga, as receitas desceram vertiginosamente, a extinção do futebol profissional chegou a parecer uma inevitabilidade, devido às dificuldades financeiras, até 2009, mais concretamente Junho desse ano, quando a Traffic inicia a sua intervenção no clube.
Inicialmente, a Traffic assegura apenas o controlo da gestão e uma participação na sociedade. Mesmo assim, toda a época de 2009/10 já é definida pela empresa de marketing desportivo, assim como toda a reestruturação do futebol profissional e toda a sua organização.
Nova subida de divisão
Após uma época de relativo sossego desportivo e de acalmia financeira, o Estoril voltava a ser um clube competitivo e um bom destino profissional para os seus atletas. O próximo passo seria reconstruir a ligação entre os adeptos e a equipa de futebol e a SAD que o geria.
Em 2010, dá-se o passo definitivo em direcção à recuperação da credibilidade financeira da SAD e da sua retoma desportiva, quando a Traffic se torna accionista maioritário da SAD, com um controlo total e rigoroso sobre a sua gestão.
Com uma nova administração, a SAD do Estoril foi à procura da estabilidade desportiva e de recuperar a alma iniciadora do clube, que em 1939 se propôs ser a principal referência desportiva de uma região.
Os novos accionistas perceberam, rapidamente, que a história do clube, o seu papel referencial na região e no desporto nacional, seriam a rampa de lançamento para a projecção de um Estoril renovado, pujante e competitivo.
O objectivo é claro. Tornar o Estoril, definitivamente um clube de Primeira, sem avanços e recuos, financeiramente recuperado e desportivamente sólido.
Os primeiros sinais não demoraram muito a ser emitidos. Em 2010, o Estoril vence a Liga Intercalar, uma competição que se destina aos jogadores menos utilizados do plantel e na época seguinte, vence, de novo, a competição, mas agora com a designação de Liga Centenário.
Apesar da relativa importância destas conquistas, estes foram os sinais de que alguma coisa estava a mudar no Estoril, o que se veio a confirmar com a estupenda subida de divisão, alcançada brilhantemente no final da época passada.
Desta vez, o Estoril está de regresso à Primeira Liga e pretende uma afirmação categórica na principal competição de clubes em Portugal. Uma afirmação que revê nos valores históricos do clube e nos valores culturais e sociais da região que o engloba.
Um Estoril virado para o futuro, mas que não esquece que é ao passado que vai buscar a sua permanente inspiração.
